O dia amanheceu nublado. As árvores pouco se mexiam, na companhia de alguma brisa. Pessoa? Elas ainda não ocupavam a rua. Já era tarde, deveriam trabalhar, mas ninguém saia de suas casas. Acordo, levanto, me visto, vou ao banheiro. Agora acordei, me olhando no espalho. Também pudera! Esta é a rotina diária na vida de alguém. Também foi a minha. Ou melhor, ainda é. Mas nesse dia, não foi como os outros. O espelho, a manhã, eu, o espelho…Olhei para ele. Encarei-o. O espelho, ali refletido também me encarou. Ri. Não é que também foi simpático!?! Naquela, nesta manhã percebi o espelho. Tantas vezes ele está na nossa frente, todo dia e apenas o vemos para vestirmos. Mas descobri algo além dele. Sua profundidade. Ali, na frente do espelho, não me enxerguei, mas um espelho, refletindo minha imagem, meu ser, meu banheiro. Ele não serve para uma rotina diária. Cansa-se disso assim como nós! Pelo que o vejo é algo além disso. Ele nos pensa. Isso mesmo! Nossa imagem lá refletida também pensa!

O espelho é a porta para os sonhos e devaneios. Largue sua imagem estática, logo de manhã antes de se pentear, às mulheres antes de arrumar a maquiagem e deixe ele penetrar dentre de si. A doce luz do sol que raia, penetrar em teu mais íntimo ser, ainda puro das camadas de imposição diárias. Se para Drummond existe a chave que penetra surdamente no mundo das palavras, encontrei o portal que penetra(só surdamente!?!) no reino dos sonhos. Ali residem as palavras, os sonhos, o ser.